Dr. Sebastião Diógenes - Médico e Tesoureiro da SOBRAMES-CE |
A enfermidade do Dr. Severo
A
enfermidade do Dr. Severo começou tempos depois da morte da árvore do Morro do
Calabar. Tratava-se de uma árvore enorme, de tronco excessivo, e ocupava o oitão
do edifício onde a filha morava. Era um baobá de semente africana! Antigamente,
antes da especulação imobiliária, havia um grande terreiro de candomblé e a
árvore era considerada o santuário sagrado pelos frequentadores de várias
gerações de afrodescendentes.
Arlete, pediatra e naturalista, amava aquela árvore desde criança! Em um
determinado dia observou que ela estava secando, morrendo aos poucos. Ficou
muito triste e passou a fazer diligências. Indagava a um e a outro o que havia
acontecido com o lenhoso vegetal. Ficou indignada quando soube a pavorosa
verdade.
Ao
julgar que a árvore estava pondo em risco a estrutura do edifício da filha, Dr.
Severo furou o lenho com a pua e injetou-lhe o veneno. Imediatamente, sobreveio
ao pensamento de Arlete que o impiedoso arborecida
iria, um dia, se dar mal. Na época, chegou a comentar o caso com o marido, bem
antes da doença se instalar no parente. O companheiro não deu crédito ao mau
presságio da devota dos fenômenos sobrenaturais, disse-lhe apenas que era bobagem.
Dr. Severo era um profissional liberal bem sucedido, chefe de família
exemplar e de agradável convivência social. Era um homem cordial e respeitava
os códigos. Causou, portanto, surpresa geral o delito perpetrado.
Os primeiros sintomas da moléstia se manifestaram na escrita. Arlete foi
a primeira a observar-lhe a alteração, a letra miúda e tremida. Depois, as mãos
começaram a entortar. Pensou em Parkinson.
Logo em seguida, lembrou-se da árvore sagrada do candomblé que fora executada.
Veio-lhe, novamente, ao pensamento a ideia do
presságio lúgubre, que algo ruim aconteceria ao desatinado dentista, um
cirurgião que havia sido ávido na prática das extrações. Observadora obstinada,
ela sempre tem associado o quadro clínico do paciente com as agonias de morte do
venerável baobá.
A
despeito de exames médicos realizados nos centros mais avançados do país e do
exterior, a doença tem cursado o seu itinerário sombrio. Até hoje os
especialistas consultados não fecharam o diagnóstico. Apresentaram como
hipótese mais provável a doença de “Parkinson
like”. Arlete tem discordado, continua argumentando com veemência que somente
ela sabe o misterioso diagnóstico: “a vingança do baobá”.
Falta
consistência à tese fantástica de Arlete. Na Amazônia milhares de árvores são ceifadas
diariamente e os criminosos não vão para a cadeia nem ficam entrevados. Arlete
defende-se. Ficam-nos impunes porque a justiça dos homens é falha nesta parte
do planeta. E não contraem entrevação nas junturas porque, com fazer parte das
florestas, tais árvores jamais atuaram em celebrações de candomblé. Não
possuem, por conseguinte, a essência da punição.
Arlete sempre tem advertido as pessoas sobre os malefícios advindos da destruição
das coisas sagradas. Para ela o caso do Dr. Severo lhe parece muito claro, pois,
cliente da superstição, acredita piamente nos enigmas da vida. E um deles ajuda
a fechar o diagnóstico do enfermo, como se fora um exame de imagem de alta
resolução: “O enigma da vingança da árvore sagrada do Morro do Calabar”.
Esse é o diagnóstico definitivo do paciente, à luz das crenças de
Arlete.
E
o pior desse enredo, é que ainda tem gente que acredita na mística!
Sebastião Diógenes.
2010.
Excelente texto! Parabéns!
ResponderExcluirabraço
anamargarida