A Diretoria da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional Ceará, convida a todos para o lançamento de "Fortaleza, em Dose Plena.", a 44º antologia da Sobrames-CE.
Local: Centro de Eventos do Ceará
Horário: 17 horas
A Diretoria da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional Ceará, convida a todos para o lançamento de "Fortaleza, em Dose Plena.", a 44º antologia da Sobrames-CE.
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Crônicas sobre o tempo, a medicina e a condição humana.
Por
Rebeca Diógenes
Há uma estranha arrogância em nossa relação com o tempo. Fazemos
planos para o próximo ano, marcamos reuniões para o mês seguinte, compramos
agendas novas como quem adquire uma garantia silenciosa de que estaremos vivos
para preenchê-las. Chamamos isso de organização. Talvez seja apenas uma forma
elegante de negociar com a incerteza.
Mas será que o amanhã existe?
A pergunta parece ingênua, até que a vida resolve respondê-la. Ela o
faz sem alarde: numa ligação inesperada, em um diagnóstico, em um acidente, em
uma despedida que acreditávamos provisória. Descobrimos, então, que o amanhã
nunca foi um lugar. Era apenas uma hipótese. Os antigos estóicos já
desconfiavam dessa ilusão. Não porque desprezassem o futuro, mas porque
compreendiam que ele jamais pertenceu ao homem. Sêneca dizia que perdemos muito
da vida enquanto adiamos viver. Dois mil anos depois, cercados por inteligência
artificial, mercados em tempo real e calendários sincronizados na nuvem,
continuamos cometendo exatamente o mesmo erro: sacrificamos o único tempo real
em nome de um tempo imaginado.
Vivemos como investidores de um futuro que talvez nunca liquide seus
dividendos.
É curioso. A tecnologia reduziu distâncias, acelerou processos,
multiplicou possibilidades, mas não conseguiu fabricar um único amanhã. Ela
prevê tendências, calcula probabilidades, simula cenários. Contudo, permanece
incapaz de prometer o próximo amanhecer. Talvez por isso a sofisticação
contemporânea não esteja em controlar o tempo, mas em reconciliar-se com sua
natureza imprevisível. Existe uma elegância silenciosa em quem compreende que o
presente não é um intervalo entre ontem e amanhã; é o único território onde a
existência realmente acontece.
O amanhã é uma ideia poderosa. Inspira sonhos, sustenta projetos,
impulsiona civilizações. Mas continua sendo apenas uma ideia até que o relógio,
indiferente aos nossos desejos, decida transformá-la em realidade. Há pessoas
que vivem esperando a ocasião perfeita para amar, viajar, pedir perdão, mudar
de profissão, escrever um livro, abraçar um filho ou telefonar para alguém
importante. Depositam a própria felicidade em um banco chamado
"depois". Esquecem-se de que o tempo não oferece garantias de saque.
Talvez a maturidade consista justamente em abandonar a ilusão do
controle sem renunciar à esperança. Planejar, sim. Sonhar, sempre. Mas sem
transformar o futuro em condição para começar a viver. No fim, a pergunta
permanece sem resposta definitiva: Será que o amanhã existe? Talvez exista.
Talvez não.
O que certamente existe é este instante discreto, quase invisível, que
insiste em passar enquanto pensamos no próximo. E há uma ironia profundamente
humana nisso: passamos tanto tempo procurando o amanhã que, muitas vezes,
deixamos escapar o único dia que verdadeiramente nos pertence. O presente. E,
quem sabe, seja exatamente nele que a eternidade faz sua mais breve e preciosa
aparição.
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MÃOS
Éden Moura - Membro Acadêmico da Sobrames-CE
"Pardalzinho"
Muito mais silenciosa do que era de costume, a unidade que amiúde eu visitava assistiria outra vez à circunstância materialmente encontradiça que eu conheceria, no entanto, pela primeira vez.
Era sabido o que iria acontecer. Fora debatido, planejado e por fim tomara forma: dona Cândida, depois da viva intrepidez com que enfrentara o seu penar, havia então de achar descanso. Sob os cuidados da equipe e após as despedidas, era tempo de deixar.
Presenciei os ocorridos como que do princípio. A admissão nas dependências, as instabilidades repentinas, a mansa recusa em resignar-se; o modo como andava, ela, de mãos dadas com o agora. Ainda me recordo dos seus doces dizeres, do seu tão lasso riso e das bênçãos que sobre nós ela teimava em derramar. Pois era toda em fé, num apaixonamento indizível pela vida... — e a fé enchia o leito, a paixão enchia os seres, agregando-nos, coadunando quem à dona Cândida podia se achegar. Tanto o era que, no derradeiro dia, apinhavam-se alguns daqueles que acabaram por amá-la, inevitavelmente, nem que por instante.
Ali, defronte de sua maca, nós a observávamos como se observa alçar voo um pardalzinho. Este, outrora estático por sobre a fiação, torna à sua existência errante, cheia do seu fazer-se livre e do vento — não tão seu —; cheia de um céu imenso, enevoado, bem como do acaso que portanto há de buscar. Caberá dizer ainda que, se o pequeno o faz embevecido pelo seu canto tão próprio, avessamente o fazia a docíssima senhora: partia num silêncio que, contudo, como aquele chilro, era singular. Ora, se a melodia nos encanta por estimular nossos ouvidos e criar formas de dança, seu silêncio encantava ao agir do mesmo modo, mas por sobre as consciências — e dançávamos, assim, extasiados, sem o céu e sem o canto, sem o vento, sem o voo, sem pardal e seu acaso; dançávamos inertes, em instâncias mui distintas, nossos passos espirituais. Afinal, diante de nós, suspirava-lhe a vida, esvaindo-se, sumindo dos domínios da matéria fugidia, porém a sua alma, do contrário, rebentava no liberto, aos prantos e soluços tão comuns aos nascimentos — renovavam-se os votos que outrora ela fizera, ainda que, no tempo, não pudesse perceber.