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terça-feira, 21 de julho de 2026

POR REBECA DIÓGENES: ENQUANTO AINDA É HOJE

 


Enquanto ainda é hoje

Crônicas sobre o tempo, a medicina e a condição humana.

Por Rebeca Diógenes

Há uma estranha arrogância em nossa relação com o tempo. Fazemos planos para o próximo ano, marcamos reuniões para o mês seguinte, compramos agendas novas como quem adquire uma garantia silenciosa de que estaremos vivos para preenchê-las. Chamamos isso de organização. Talvez seja apenas uma forma elegante de negociar com a incerteza.

Mas será que o amanhã existe?

A pergunta parece ingênua, até que a vida resolve respondê-la. Ela o faz sem alarde: numa ligação inesperada, em um diagnóstico, em um acidente, em uma despedida que acreditávamos provisória. Descobrimos, então, que o amanhã nunca foi um lugar. Era apenas uma hipótese. Os antigos estóicos já desconfiavam dessa ilusão. Não porque desprezassem o futuro, mas porque compreendiam que ele jamais pertenceu ao homem. Sêneca dizia que perdemos muito da vida enquanto adiamos viver. Dois mil anos depois, cercados por inteligência artificial, mercados em tempo real e calendários sincronizados na nuvem, continuamos cometendo exatamente o mesmo erro: sacrificamos o único tempo real em nome de um tempo imaginado.

Vivemos como investidores de um futuro que talvez nunca liquide seus dividendos.

É curioso. A tecnologia reduziu distâncias, acelerou processos, multiplicou possibilidades, mas não conseguiu fabricar um único amanhã. Ela prevê tendências, calcula probabilidades, simula cenários. Contudo, permanece incapaz de prometer o próximo amanhecer. Talvez por isso a sofisticação contemporânea não esteja em controlar o tempo, mas em reconciliar-se com sua natureza imprevisível. Existe uma elegância silenciosa em quem compreende que o presente não é um intervalo entre ontem e amanhã; é o único território onde a existência realmente acontece.

O amanhã é uma ideia poderosa. Inspira sonhos, sustenta projetos, impulsiona civilizações. Mas continua sendo apenas uma ideia até que o relógio, indiferente aos nossos desejos, decida transformá-la em realidade. Há pessoas que vivem esperando a ocasião perfeita para amar, viajar, pedir perdão, mudar de profissão, escrever um livro, abraçar um filho ou telefonar para alguém importante. Depositam a própria felicidade em um banco chamado "depois". Esquecem-se de que o tempo não oferece garantias de saque.

Talvez a maturidade consista justamente em abandonar a ilusão do controle sem renunciar à esperança. Planejar, sim. Sonhar, sempre. Mas sem transformar o futuro em condição para começar a viver. No fim, a pergunta permanece sem resposta definitiva: Será que o amanhã existe? Talvez exista. Talvez não.

O que certamente existe é este instante discreto, quase invisível, que insiste em passar enquanto pensamos no próximo. E há uma ironia profundamente humana nisso: passamos tanto tempo procurando o amanhã que, muitas vezes, deixamos escapar o único dia que verdadeiramente nos pertence. O presente. E, quem sabe, seja exatamente nele que a eternidade faz sua mais breve e preciosa aparição.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

POR RONALD TELES: RECOMEÇAR


Recomeçar


Ande, pare e volte
Ao teu interior, à tua alma
À tua essência,
Coloca teus pés no chão de tua consciência,
Sinta o ar e a brisa que beija tua face,
O sol que nasce todos os dias e aquece teus ossos,
O brilho  verdejante das florestas,
O azul do céu acima de qualquer sorte,
beijando estrelas que luzem no infinito
bem acima das brancas nuvens,
Te mostrando um tempo congelado
Por um átimo do universo criado
por poderosos olhos da eternidade. 
Agora tuas aturdidas lágrimas
repousam em mãos maiores que as tuas,
O movimento das estradas e ruas
já não te comovem e abalam tua sorte,
Voltaste à água da vida
que limpa feridas e cortes,
Te alçando ao presente do teu futuro
Que que renasceu do limbo
do recomeço de tudo,
Além dos muros humanos.
Agora  vês que encontraste teu porto seguro
Nos braços de teu Salvador e Senhor.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

POR RONALD TELES: TEMPO

Dr. Ronald Teles
TEMPO 

Prateaste meus cabelos e colocaste vincos em minha face,
No entanto meus olhos e coração são de menino!
Eles me destinam ao belo e novo,
Acresço minha vida de esperanças e alegrias,
As encontro todo dia,
Tal qual um presente de cada sol que brilha,
No desabrochar de flores primaveris,
Nos doces frutos do teu amor juvenil,
Na chuva que disfarça minhas lágrimas de tristeza,
No pão que recebo de minha frugal, mas farta mesa,
No abraço franco de meus diletos amigos.
Meu tempo não é nítido ou retilíneo
Ele faz curvas junto com o vento,
Este mesmo que espalha teus cabelos,
E asperge o perfume que me delicia,
E me transporta a um arco que finda no infinito,
Então mais uma vez reflito,
Refaço o novo curso, e parto,
Rumo ao amanhã,
Sem olhar o que passou,
Pois em meu peito, guardo a esperança,
E o desiderato de seguir em frente,
Que engana horas e dias,
Me fazendo nascer novamente

sexta-feira, 5 de junho de 2026

POR RONALD TELES: ABSINTO

 

Dr. Ronald Teles 

ABSINTO


Envereda pelo azul, pelo verde, pela verdadeira vida,
Dissipa teu orgulho e cinismo
Pois quem tudo vê,
Observa a sordidez de teus planos e o sangue turvo
Que brota de teu agônico coração,
Que parece estar vivo,
Mas anima um moribundo corpo,
E uma mente torpe,
Dele também brota tua soberba
Que empana teu vesgo olhar,
Ele é estrábico e de viés enxerga,
Só vê críticas cegas,
A despeito do bom, belo e perfeito,
Não tens culpa de nasceres deste jeito,
Tua concepção foi torta e não refrega teus meneios,
Que te fazem cada vez mais feio e abjeto,
Abrigando humores ácidos de entremeio,
Fingindo que parece doce e esperto,
Mas não consegue esconder,
Teu mau universo inverso,
Cheio de estrelas cadentes,
Inconsistentes em um céu púrpura,
Vagando em uma galáxia sem o brilho do sol,
Que infelizmente não pode contemplares,
Pois tua impressão é vaga,
Perseguida por teu rastro torto,
Digno de compaixão,
Daqueles que são luz do mundo

terça-feira, 26 de maio de 2026

POR RONALD TELES: CRISTAL

Dr. Ronald Teles

Cristal

Um cristal se quebrou
Em milhões de pequenos pedaços,
Perdidos no tempo e no espaço 
D'antes ocupado por nosso grande amor,
Onde era luz ,jaz uma sombra,
O brilho foi ofuscado por feridas abertas,
Elas sangram em súplicas,
Que nunca serão derradeiras
Pedindo para continuarmos,
Porém, nosso universo rachou,
Dele,estrelas cadentes caíram 
Em nossos corações contristados,
Que somente albergam a dor
Sem as doces auroras do passado,
Mas nosso âmago traz um sentimento,
Que o que de nós dois brotou,
Frutificou em lindas sementes,
Que viscejam sem tormentos,
Levadas pela terna brisa,
Que um dia soprou nas velas de uma maviosa  nau.
Reunindo todo o carinho e afeto,
Em juras de um querer eterno,
Que amargamente acabou

quarta-feira, 29 de abril de 2026

POR RONALD TELES: SINCRONICIDADE

Dr. Ronald Teles 

Sincronicidade

Há uma cidade linda e escondida,
Com ruas inauditas,
Torres iluminadas,
Perfumadas pelo dia,
Acalentadas pela noite,
Orvalhadas por teus olhos,
Repousando em meus sentimentos
Que grassam em intermitências 
E resvalam em meu coração
Arrebatado por ti
E por tudo o que significas,
Pois agora já somos um só...
E não há nada que nos separe,
Somos almas geminadas
Por nossa longa estrada
Que termina dentro de nós...
Jamais olvide  que nosso amor
Foi forjado por fogo e ventanias,
Ele brilha todo dia
Em um terno abraço 
Que nos envolve e propicia
A ternura e tecitura,
Da eternidade que nos espera
Em um plácido beijo,
Sempre saudoso do futuro,
Que nos acalentará
Em nosso infinito desejo.

terça-feira, 7 de abril de 2026

POR RONALD TELES: QUO VADIS

Dr. Ronald Teles 

Quo vadis


Tenho me cercado do tempo inclinado,
De suas escarpas afiadas
Que o fazem lento, ao mesmo tempo apressado,
Tenho me cercado de noites insones
Aplacadas por uma química indulgente,
Que faz dormir lentamente,
Invadindo o novo dia,
Me pondo em pé, mais uma vez,
Tenho me cercado do verde das plantas
Que copiam teus verdes olhos,
E me dão paz para seguir em frente,
Tenho me cercado de dias abrasivos e noites frias,
Com a chuva que prenuncia
A fartura e a esperança de melhores janeiros,
Tenho me fartado da inclemencia humana
Que desafia as virtudes,
Esbarrando na estultícia do egoísmo e brutalidade,
Tenho me cercado das orações maternas
Que buscam os céus, pedindo por minha saúde,
Tenho me cercado de minha solitude
Ela nunca me ilude, pois termina em meu âmago e minha verdade,
Tenho me cercado de minha fé,
Ela clama por mim e por quem amo,
Tenho me cercado de tudo e menos um pouco,
Tenho me cercado de divisas e permissões,
Tenho me cercado de tudo o que me faz melhor,
Tenho me cercado do fim e do começo,
Além do qual já não mereça estar só.