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| Éden Moura - Membro Acadêmico da Sobrames-CE |
"Pardalzinho"
Muito
mais silenciosa do que era de costume,
a unidade que amiúde eu visitava assistiria outra vez à circunstância materialmente
encontradiça que eu conheceria, no entanto, pela primeira vez.
Era sabido o que iria acontecer. Fora debatido, planejado
e por fim tomara forma: dona Cândida,
depois da viva intrepidez com que enfrentara o seu penar, havia então de
achar descanso. Sob os cuidados da equipe e após as despedidas, era tempo de
deixar.
Presenciei os ocorridos como que do princípio. A admissão
nas dependências, as instabilidades repentinas, a mansa recusa em resignar-se;
o modo como andava, ela, de mãos dadas com o agora. Ainda me recordo dos seus doces
dizeres, do seu tão lasso
riso e das bênçãos que sobre nós ela teimava
em derramar. Pois era toda em fé, num apaixonamento
indizível pela vida... — e a fé enchia o leito, a paixão enchia os seres,
agregando-nos, coadunando quem à dona Cândida podia se achegar. Tanto o era
que, no derradeiro dia, apinhavam-se alguns daqueles que acabaram
por amá-la, inevitavelmente, nem que por instante.
Ali, defronte de sua maca,
nós a observávamos como se observa alçar
voo um pardalzinho. Este, outrora estático por sobre a fiação,
torna à sua existência errante, cheia do seu fazer-se livre e do vento — não
tão seu —; cheia de um céu
imenso, enevoado, bem como do acaso que portanto há de buscar. Caberá dizer
ainda que, se o pequeno
o faz embevecido pelo seu canto tão próprio, avessamente o fazia a docíssima senhora:
partia num silêncio que,
contudo, como aquele chilro, era singular. Ora, se a melodia nos encanta por
estimular nossos ouvidos e criar formas de dança, seu
silêncio encantava ao agir do mesmo modo, mas por sobre as consciências — e dançávamos, assim, extasiados, sem o céu e sem o canto, sem o vento, sem o voo, sem pardal e seu acaso;
dançávamos inertes, em instâncias mui distintas, nossos passos espirituais.
Afinal, diante de nós, suspirava-lhe a vida, esvaindo-se, sumindo dos domínios
da matéria fugidia, porém a sua alma, do contrário, rebentava no liberto, aos
prantos e soluços tão comuns aos nascimentos — renovavam-se os votos que
outrora ela fizera, ainda que, no tempo, não pudesse perceber.
— Sê feliz, minha menina!
E voou: doce e
velho pardalzinho.